Dr. Liberato Caboclo
Uma cegueira estranha
Quando o casal entrou no consultório logo percebi que o homem era cego. A mulher conduzindo-o pelo braço, o caminhar hesitante e os indefectíveis óculos escuros atestavam a cegueira, de modo inequívoco. Acomodando-se na cadeira, o homem me cumprimentou e se queixou com uma certa tranqüilidade:
- Doutor, estou com uma terrível dor de cabeça. Sofro de pressão alta e, ultimamente, tenho me aborrecido quase todo dia porque minha esposa bebe demais e me dá muito desgosto.
Enquanto lhe tomava a pressão, notei a expressão de constrangimento da mulher estampada num belo rosto que não me parecia estranho. A pressão estava muito alta e decidi por internar o paciente que imediatamente concordou, com uma única condição:
- Está certo, doutor, mas ela tem que ficar comigo.
Era evidente que um cego requer uma acompanhante e a minha única preocupação foi saber se a mulher estava em condições de assumir a responsabilidade da internação. Perguntei-lhe o nome mas quem respondeu foi o marido – Ava Gardner!
Um tanto perplexo, mas imediatamente voltando à minha impressão inicial que aquele rosto me causara, questionei a mulher:
- A senhora bebeu muito hoje?
Mais uma vez a resposta foi surpreendente: I don´t drink at all.
A resposta, num inglês californiano impecável, foi emitida junto com um hálito do mais genuíno scotch. Hálito de pinguça e das boas!
Bastante intrigado, encaminhei o casal ao centro de cuidados intensivos e continuei o atendimento regular aos demais pacientes.
Á noite recebi a triste notícia de que o paciente falecera subitamente em virtude de uma hemorragia cerebral maciça. A enfermagem também estranhara a semelhança física com a famosa atriz, o inglês escorreito e, sobretudo, as palavras do paciente no seu momento de agonia:
- Ava, prometa-me, nunca mais você vai procurar o Frank. Prometa-me Ava!
“O Frank nunca mais”, foram suas últimas palavras.
Uma semana após, Ava Gardner me procurou no hospital a fim de me solicitar o preenchimento de um formulário de seguro, quando eu então fiquei sabendo que Tereza (e não Ava) conhecera aquele homem cego, o Alfredo quanto tinha 16 anos. Era ainda normalista, vestida de azul e branco, trazendo um sorriso franco num rostinho encantador! Casou-se com 19 anos, depois de quatro anos de namoro e noivado transcorridos num relacionamento digno e respeitoso, e viveu cinco a dez anos da mais completa felicidade, época em que nasceram os três filhos do casal. Mas depois o casamento entrou naquela fase de rotina e tédio, período que os céticos costumam chamar de casamento propriamente dito. Para Tereza sobrara apenas o afeto dos filhos e uma ou outra demonstração episódica de carinho do marido, expressa em frases chavões do tipo “não troco minha esposa por nenhuma deste mundo!”
Não é preciso ser muito sagaz para inferir que esposa não é mulher, que mulher não é algo permutável e, mais ainda, que a possibilidade de um acúmulo simultâneo, sem troca, não fica excluído. Resta ainda o alerta de que existem certas mulheres que, por serem tão maravilhosas, fazer parte “de outro mundo” e ficam, portanto, fora do vulgar axioma dos maridos sérios.
Tereza passou a se preparar para o dia em que uma carta anônima ou a melhor amiga dessa a fatídica notícia: “O Alfredo tem outra!”.
Não sendo do tipo que vai atrás do problema, Tereza ficou na dela, confiante nos princípios filosóficos – “ruim com ele, pior sem ele!”.
O tempo passou, até que um dia Alfredo chegou em casa um tanto ansioso. As compras do mês haviam sido entregues àquela tarde e ele foi direto à caixa de sabonetes Palmolive, comprada ante à sua insistência ao sair de casa pela manhã.
- Tereza, não vá esquecer, compre uma caixa de sabonetes Palmolive!
Alfredo, caixa debaixo do braço, trancou-se no banheiro. De lá só saiu após duas horas gastas num longo banho de chuveiro, enquanto cantava com uma pronúncia horrorosa as canções da época – “Tenderly”, “The man i love”, “Speak low” etc... Saiu do banheiro com aquela aparência serena do homem pleno, realizado. Tereza, a princípio, julgou que a ansiedade de Alfredo estava relacionada à necessidade de um banho para apagar uma mancha ou perfume comprometedor.
Mais tarde, Tereza foi tomar seu banho e se surpreendeu ao ver todos os sabonetes abertos e novamente envolvidos pelos invólucros. No folhetim de propaganda encontrou a chave para a solução do enigma – o sabonete Palmolive, preferido por nove entre dez estrelas de cinema, agora lhe oferece a oportunidade de tomar um delicioso banho com a sua artista preferida, e seguia-se a lista com os nomes das famosas divas – Diana Durbin, Lana Turner, Marlene Dietrich. Tranquilamente ela abriu os sabonetes e viu dentro de cada invólucro o retrato das vampes idolatradas e os nomes gravados em alto relevo na superfície do sabonete. Alfredo tomara banho com Ava Gardner, um luxúrico banho de mais de duas horas. Alfredo estava apaixonado por Ava, terrivelmente envolvido pela grande estrela.
Á noite, quando se deitaram. Tereza simplesmente comentou:
- Então é a Ava, Alfredo, que você roubou de mim? Não há de ser nada!
Deste dia em diante passaram a viver a três: Alfredo, Tereza e Ava Gardner. Na semana seguinte, em cima da penteadeira, podia-se ver a fotografia sorridente de Alfredo e, a cada lado, Tereza e Ava Gardner.
Alfredo comprava toda e qualquer publicação que trouxesse alguma notícia da sua amada. Acompanhava suas viagens pari passu. Uma noite acordou Tereza sobressaltado – “Tereza, um desastre horrível de avião, em Londres, e ela ia viajar para lá, acabei de ouvir na BBC”. Mas no dia seguinte, Adolfo Cruz, na Cinelândia Matinal, tranqüilizou os fãs de Ava. Por um capricho do destino ela adiara a viagem e se salvara milagrosamente. Alfredo mandou celebrar uma missa em ação de graças, a que compareceram Tereza e os filhos do casal.
Aos domingos não havia dúvida: a família obrigatoriamente ia assistir a um filme tendo Ava como atriz principal. Tereza não ousava sequer segurar a mão do marido. A respiração ofegante, a indisfarçável excitação de Alfredo, antes de ser um acinte, era o prenúncio de uma noite inesquecível de amor extremo.
Assim viveram felizes muitos anos, qté que uma inflamação incurável cegou total e definitivamente Alfredo, que caiu numa depressão grave. Tereza nunca se tocava muito com as lamúrias do marido:
- Nunca mais vou vê-la. Nunca mais, Tereza. É melhor morrer do que viver sem ela. Se pelo menos pudesse tê-la ao meu lado. Mas não posso! É melhor morrer do que sofrer com a ausência de Ava.
O afeto se destrói como um todo e nunca mais Tereza teve um carinho, uma noite feliz com Alfredo. O que os olhos não vêem o coração não sente!
Mulher inteligente, Tereza aprendeu a falar inglês, não tanto o coloquial, antes cuidou em decorar os textos dos filmes de Ava Gardner e quem apurasse os ouvidos junto à janela do quarto do casal poderia ouvir Tereza:
- And now you have my body. Na vitrola, Bing Crosby cantava “You belong to me”.
Os demais detalhes Tereza já aprendera há muito tempo. O perfume, por exemplo, era o Chanel número um, o perfume preferido de Ava.
A única dificuldade era a aversão que Tereza tinha por bebida alcoólica. Mas contornara tal dificuldade bochechando uísque e e embebendo a sua combinação com o precioso líquido.
Vivia Tereza dois papéis. Durante o dia era a esposa zelosa, suarenta, cheirando a gordura, cebola e alho, ralhando com as crianças, tomando conta de Alfredo. Á noite, ou quando saíam de casa, transmudava-se em Ava Gardner, luxúrica, alcoólatra, superestrela.
Foram os melhores anos de sua vida.É difícil imaginar que alguém tenha sido mais amada, mais desejada, mais enaltecida. Noite havia em que era amada como a Condessa Descalça, com a ternura italiana de um Rossano Brazzi. Outras vezes com o carinho discreto e intelectual Gregory Peck, nas neves do Kilimandjaro.
As últimas palavras de Alfredo tiveram o sabor de um presságio. Realmente ao que se sabe, Ava Gardner deixou Frank Sinatra falando e cantando sozinho.
Quanto à Tereza, a última vez que a vi nas imediações do hospital, ela passeava de mãos dadas com um baixinho albino, cara de criança velha. Pode ser impressão, mas o sujeito tinha a cara do Mickey Rooney!
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